quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Ninguém mais ouve música


No último final de semana tive uma experiência muito bacana revendo pessoas que influenciaram muito minha personalidade musical. Meus dois amigos e irmãos de palco Guiguiu e Julay, e o pai do Guiguiu, o Sr. Edson, pessoa que sempre considerei como um guru espiritual da banda. Além de guiar nossos caminhos, influenciando sempre positivamente nossas composições e técnicas musicais, ele foi a pessoa responsável por sempre manter a banda unida e motivada, com um espírito sempre alegre, e sempre disposto a ensinar e aprender algum pensamento filosófico, ou até mesmo interplanetário. Interplanetário porque, quase sempre, (e nesse quase entenda-se 95% das vezes) o papo iria parar em assuntos como o universo e constelações. Essas reuniões, geralmente se proporcionavam na casa mesmo do Sr. Edson, com todos sentados em volta de uma vitrola, num quartinho pequeno e improvisado, porém sempre aconchegante, chamado Toca do Vinil. A decoração do quartinho abordava temas filosóficos, que depois da quinta cerveja já se tornavam inspirações para discussões ainda mais profundas. Lembro-me da vez que, com aquele pôster do sistema solar, calculamos a exata proporção entre os planetas, em menor escala. Por aquele sistema, o (na época) planeta Plutão, que era apenas um pontinho no pôster, deveria ficar a 16km do sol, naquela escala. Claro que o cálculo tem qualidade questionável, devido ao nível de álcool nas veias que tínhamos, mas lembro que ficamos satisfeitos com o resultado. Lembro-me também do dia em que discutíamos a ignorância do holocausto, quando o violino de Itzaak Pearlman nos emocionou profundamente, ao ouvir um solo tão triste, em uma das músicas da trilha de “A Lista de Schindler”. Parecia que nós sentiamos na pele o que aquele povo passou.

Como todas as outras vezes, neste fim de semana a conversa da toca passou por vários assuntos, perfumes, remédios medicinais, ervas medicinais, árvores e afins e teve seu ponto forte num simples aspecto. Ouvir música. Conclui que ninguém mais hoje em dia, ouve música. Minha opinião foi aceita em unânime pelos outros participantes. E acredito que o motivo é simples, neste novo mundo, regido pela internet, a música ficou puramente digital, simples, computadorizada, embutida. As empresas de software dominam essa indústria, com programas como Itunes, e Media Player 11, onde o usuário tem verdadeiras Jukeboxes em casa, com direito a interações virtuais com encarte dos cds e afins. Ou seja, até o manuseio de um cd hoje é virtual. Não vejo isso como algo repugnante, pelo contrário, como usuário que sou, vejo isso com fascínio, vindo de uma geração que um simples disco com 10 músicas tinha 30 cm. Hoje, tenho 80 cds virtuais.

O que me deixa triste é que não contamos mais músicas, contamos espaço. Por exemplo, você não tem uma coleção de 1200 músicas, você tem 7 giga. Músicas não são mais unidades de valor, o que vale agora é a grandeza. Antes, ouvir música era um passatempo, as pessoas se reuniam, debatiam o que iriam ouvir, procuravam aquele bolachão (era difícil encontrar quando coleções eram muito grandes), e ouviam. Ficavam em volta da vitrola, prestando atenção apenas na música, assim a musicalidade aflorava mais fácil, as pessoas era mais calmas, quem sabe, mais felizes. Hoje, a música te acompanha, você vai pro trabalho ouvindo no carro, ou no ônibus no seu Ipod vídeo, ou no mp3 player......enfim. Você não ouve os detalhes, a música passa na sua cabeça enquanto você faz milhares de outras coisas, e assim não tem significado pra você, não tem emocional, não é passatempo. Não tem mais “ouvir música”.

Como disse, não condeno nenhum progresso virtual, pelo contrário, sou grande fã. Porém temos que pensar que a musicalidade está na cabeça de cada um.

E espero que possamos mudar isso.

Um comentário:

Anônimo disse...

Caro pianista metodicamente eclético,

Realmente acho que a música virou algo bem fútil no dia-à-dia de certas pessoas.
Mas acredito também que nunca foram muitas as pessoas que se sentavam e apreciavam a música, sentindo cada nota com o coração, tentando absorver a mensagem da música, "ouvindo a música", essas coisas...
E estas pessoas que cultivavam esses hábitos tenho certeza que ainda "ouvem música" como você disse.
Digo isso baseado nas minhas experiências claro, pois quase todo mundo que conheço que "ouvia música" antes de acontecer esta revolução digital, ainda continua tendo seus momentos de apreciação musical.

O que acho que acontece, é que as pessoas que nunca foram grandes "ouvintes" são agora "pseudo-ouvintes" pela facilidade de se comprar um "mp3 player" de 1Gb por 4X de R$24,90 encher de músicas variadas, colocar um fone de ouvido e realizar as tarefas diárias...
Se bem que a música também foi feita para isso, ser apenas "ouvida pelos ouvidos", então não é nenhum pecado ouvir em qualquer ocasião sem prestar atenção em nada da música, que é o que anda acontecendo por aí, não é?

Bem colocada a questão dos 7Giga!
Eu mesmo não sei quantas músicas tenho no meu PC, só sei que ocupam 13,7Gb numa pasta chamada "mp3"...

Abraço!